E nesses dias vou tentando entender quem sou, ou que fui e porque fui, durante tanto tempo, a confirmação de uma pessoa que não queria ser o que era, por não ser quem era, por aceitar encenar ser tal pessoa. Muito confuso? Pois é...assim foi a vida até então.
Soa clichê dizer que o vestido me humilhava, que as bonecas me faziam sofrer e que não entendia porque o papai noel não gostava de mim. Clichê, mas verdadeiro. Aquele maldito pogobol...era só um pogobol, mas até hoje lembro da tristeza de não ser corpo suficiente para tê-lo.
Meus incômodos e não adequações começaram muito cedo, mas soube lidar muito bem com eles: era só fingir o máximo que eu conseguia e os problemas seriam acobertados. Pois bem! Ótima estudante no colégio, esportista e amiga. Rabugenta sim, muito briguenta...mas aí compensavam por eu ser "alegre" e risonha.
Olhar pra trás hoje é tão dolorido quanto as dores das memórias que tenho. Me pergunto hoje: por que demorei tanto pra perceber algo que sou eu há tanto tempo? Por que fiz isso comigo?
Tento me justificar afirmando para mim que "eu não sabia" .... mas eu sabia sim! Sabia que "ela" não era o meu pronome, que toda a vez que diziam "você é uma menina" aquilo me cortava fundo, que olhar para corpos masculinos me fazia sonhar em ser daquele jeito....eu sabia!
Sou dessas pessoas explosivas, que pouco fala de suas dores, que reclama do convencional e deixa para as amizades (poucas) um sorriso de que as coisas vão melhorar. Não lutei por mim, mal entendia que isso tudo era uma luta. Fiz o que achei que estava ao meu alcance: fui lésbica, sapatão, caminhoneira...fui o máximo que eu conhecia. Mas não fui "eu". E durante esse trajeto de tentar ser alguém já sendo, fui atrás de entender mais sobre pessoas, sobre gêneros, sobre sexualidades. Veja bem, eu sempre acreditei ter uma orientação sexual não hétero. Busquei tanto entender porque eu não me sentia satisfeita comigo que meu emprego é essa discussão. Mas sei que foi graças a toda essa busca que pude me questionar novamente, que consegui visualizar meus incômodos comigo. Que pude verbalizar minha frustração com meu corpo.
Eu fiz isso sozinha, como pessoa sozinha mesmo. Eu fugi, fui pra longe, fiquei em silêncio em um lugar desconhecido para conseguir me ouvir. E juro, quando me escutei percebi que eu estava gritando e chorando compulsivamente comigo mesmo. Mas sabe, parece que isso não passa, parece que só 'abriu a porteira' e que agora tá vindo tudo de uma vez.
Não é apenas o reconhecimento de mim, é sobre meu corpo todo, sobre tudo voltar a essa situação. Criei uma vida, alimento essa vida, fui cobrada por ser e violentada sendo a "sapatão" e não é fácil construir isso. Mas perceber que isso tudo foi uma barreira ou completa ignorância é muito mais doloroso.
Hoje vejo que minha vida pode até me pertencer, mas meu corpo não. E quando penso que são a mesma coisa, tudo vira um grande enrosco. Não sou quem eu era, mas não sou quem eu 'gostaria' de ser. Estou "entre" esses conhecimentos e vivências binárias sem entender muito bem se é aí que me encontro comigo ou se estou apenas de passagem. Não sei dizer quem sou para as outras pessoas, mas também mal sei dizer quem sou. Sei quem não sou: não sou ela, não sou quem era!
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