Hoje resolvi contar a história de uma menina. Era morava em uma cidade não muito grande, nem muito pequena. Era conhecida pelo seu bairro e sempre teve um ar questionador sobre o que era a vida. Bem, estou atravessando minha história...vamos nos apresentar antes,não?!
Cris, pois era assim que sempre foi chamada por todos, nasceu em Casópolis, uma cidade entre a grande capital de seu estado e a tranqüilidade do interior. Sempre muito sorridente, era filha única e vivia apenas com sua mãe, que era dona de um pequeno mercado de esquina.
Nossa menina teve uma infância ao ar livre, onde pode correr e se esconder à vontade em suas brincadeiras. Mas desde quando aprendeu a ler se apaixonou por livros. Claro, ela não sabia muito bem o que era aquela paixão, mas sentia algo que a fazia parar na livraria da cidade e ficar horas lendo aqueles imensos livros infantis, cheios de letras grandes e imagens coloridas.
Com o tempo, Cris foi aprimorando suas leituras e conhecendo um mundo encantador. . . o mundo das palavras mágicas. Sim, as palavras ganharam importância tamanha na vida de Cris que ela sentia que cada livro que lia tornava parte da vida dela, tornava mais um pedaço colado como nova imaginação possível.
Certo dia, quando estava pronta para dormir, logo após desejar uma boa noite de sono à sua mãe, já bem quentinha em sua cama, um pensamento mais do que inusitado surgiu como uma rajada:
- Se nas histórias que eu leio, as personagens podem se transformar e viver tudo o que desejam, por que não posso fazer o mesmo?
Então Cris teve uma idéia:
- Já sei! Vou dormir Cris e acordar Laranja. Sim, vou acordar e quando eu me olhar no espelho, estarei na cor laranja. Assim as pessoas saberão que sou diferente!
Após poucos instantes refletindo a respeito de sua brilhante idéia, Cris sentiu-se desestimulada, pois pensou na reação que outros teriam quando a visse.
- Olhem àquela menina cor de laranja, que coisa mais estranha!
- Nossa! Ela é diferente de todo mundo, não quero que alguém me veja com ela. Vão caçoar de mim também.
Estes pensamentos entristeceram nossa menina. Para ela, seria uma grande honra ser laranja, mas ela tinha muito medo de ser diferente de todos. Como lidar com isso então? Ao mesmo tempo em que queria muito uma coisa, também não a queria por medo. O que fazer?
Cris fechou seus olhos, até porque estava exausta de tanto pensar e suspirou aquela gostosa respiração de sono.
Logo após ter relaxado todo o corpo, Cris sentiu uma luz suave e delicada em seu rosto. Esta luz a despertou. Era o Sol, com aquele quentinho de uma manhã de primavera. Então ela se espreguiçou toda em sua cama e despertou para mais um dia. Só que desta vez bem pensativa:
- Hum... acho que eu deveria tentar ser laranja sim, mesmo com medo.
Assim que levantou para colocar seus chinelos, Cris percebeu que seus pés estavam cor de laranja. Ah, que felicidade! Era tudo que ela queria. Pelo menos uma parte de seu corpo da cor que ela mais gostava. Correu para frente do grande espelho que ficava bem atrás da porta de seu quarto.
- Oh! Estou toda laranja! E agora?
Neste momento, Cris esqueceu-se de que esse era o desejo dela: ser toda cor de laranja. Cris sentiu aquele friozinho na barriga. Esqueceu então do quanto gostava da cor laranja. Sua maior vontade tinha se tornado um problemão.
Mas Cris tinha outra característica, além de ser sorridente, que muito a ajudou nessa situação. Ela sabia que para resolvermos grandes problemas precisamos antes parar para pensar na melhor alternativa possível. Foi o que ela fez.
Ao parar para refletir ela lembrou do quanto gostava da cor laranja. Ela deu mais uma olhada no espelho e abriu o sorriso mais gostoso que já havia dado.
- Olha só, estou laranja! Que delicia! Sinto-me quentinha e linda.
Mas ao lembrar do medo de seus amigos rirem dela, se escondeu por baixo da coberta
- O que vou fazer se eles não quiserem mais minha amizade só porque sou laranja?
Ficou bem quietinha até ouvir sua própria respiração. E, enquanto se concentrava na própria respiração, vários outros pensamentos invadiram sua cabeça como trovões em noite de tempestade.
- Pare de ser boba, seus amigos vão te achar linda!
- Não saia mais de casa, todos irão rir de você!
- Ué, não era isso o que você tanto queria? Por que está aflita agora?
- Olha que bom! Ser exatamente como se quer! Imagine só se todos fossem coloridos!
- Blá... blá... blá...
E no meio desse turbilhão de pensamentos Cris escutou, bem ao longe, uma voz a chamá-la como se fossem sussurros:
- Criiiiiiiiiiis ...
- Criiiiiiiiiiiiis...
- Oh! Não acredito! Eu estava sonhando.
E não é que nossa menina estava sonhando mesmo?
Ela acordou em sua cama assim que sua mãe chamou para o café da manhã. Só que desta vez, diferente de todas as outras manhãs, algo incomodava Cris. Seu sonho!
Cris levantou e foi olhar no espelho. Notou que não estava cor de laranja. E quer saber? Ficou triste.
- Será que nunca poderei ser laranja?
- Fiquei tão preocupada com o que todos meus amigos iriam achar da minha mudança que, até em sonho, não consegui aproveitar o que eu mais queria. Como fui boba!
Neste momento Cris percebeu o quanto gostava de ser do jeito que era e, ao mesmo tempo, percebeu também que deveria aproveitar cada mudança e transformação de sua vida.
- Às vezes uma mudança nossa é tão deseja por nós e tão incompreensível para os outros. Mas não devemos deixar de aproveitá-la. Ela pode ser única.
E você, se pudesse escolher uma cor qual seria? Você acha que conseguiria ser tão diferente dos seus amigos? E você conseguiria ter um amigo que fosse tão diferente de você?
Nossa Cris chegou a uma conclusão:
- Ah...se eu pudesse, seria laranja muito mais vezes. O gostinho de conseguir o que eu tanto desejava foi muito bom. Meus amigos iriam gostar de me ver tão alegre. Acho que iriam sim!
- E quer saber, se eles não gostassem, o problema maior seria deles, não?! Não quero perder mais nenhum momento bom por medo do que vão achar de min. Da próxima vez eu vou é curtir um montão!
28.4.10
15.4.10
Gostar de alguém*
E quando simplesmente, por uma vontade louca, queremos a outra pessoa conosco? O que fazer quando esse querer não é correspondido?
Me peguei pensando nesta situação maluca, mas muito comum: querer um alguém, mas não da mesma maneira como este alguém te quer.
Eu, como crente na construção de nossos sentimentos, me vi aprisionada em mim mesma num questionamento pueril e ao mesmo tempo devastador. Compreender os mecanismos doloridos e prazerosos de paixões e amores brutais e delicados.
Não sei se me engano e me confundo nas histórias de minha própria vida, mas me parece que até na mitologia descrita por Malinowski os mitos de amor são ferozes. Ter uma sensação de amor inalcançável, ao mesmo tempo em que acreditamos em nossa forças e proezas, me parece tão contraditório como sincero.
Gostar de alguém é mesmo um engano? Sinto que gosto de outra pessoa para me satisfazer, para satisfazer um prazer de gostar. Mas também percebo que gosto de características que me enraivecem em todas as outras pessoas, menos no ser amado.
A dúvida de gostar ou não de alguém me parece um gostar realmente. Mas e a dúvida de querer para si este alguém amado? São duas situações completamente distintas!
Amo, sou apaixonada, vislumbro e muitas vezes sonho com a pessoa. . .não sei se a quero em meus momentos. Isso acontece não?! Comigo sim!
Acredito na vida como MINHA vida e, dentro de meus limites terrenos e cognitivos, e sentimentais, e psíquicos, e espirituais, e mais um monte, me sinto apta a escolher se quero ou não ter minha pessoa amada ao meu lado. Acha contraditório?
Acho que quando não temos condições de optar em querer ou não a pessoa amada ao nosso lado, perdemos uma parte nossa que só a nós diz respeito e que só a nós irá nos faltar.
Se acredito que uma pessoa é inteira nela mesma, tenho que entender que isso também diz respeito a suas sensações e sentimentos. Como posso eu ser autônoma e plena como pessoa se dependo, ao mesmo tempo, de uma sensação e sentimento que eu mesma deixei que se tornassem presentes e grandes e fortes em minha própria vida?
Temos muitas respostas para todas essas perguntas, não?! Acho que cabe só a nós escolhermos a melhor para cada momento que vivemos! Somos autônomos mas não solitários, será?
Me peguei pensando nesta situação maluca, mas muito comum: querer um alguém, mas não da mesma maneira como este alguém te quer.
Eu, como crente na construção de nossos sentimentos, me vi aprisionada em mim mesma num questionamento pueril e ao mesmo tempo devastador. Compreender os mecanismos doloridos e prazerosos de paixões e amores brutais e delicados.
Não sei se me engano e me confundo nas histórias de minha própria vida, mas me parece que até na mitologia descrita por Malinowski os mitos de amor são ferozes. Ter uma sensação de amor inalcançável, ao mesmo tempo em que acreditamos em nossa forças e proezas, me parece tão contraditório como sincero.
Gostar de alguém é mesmo um engano? Sinto que gosto de outra pessoa para me satisfazer, para satisfazer um prazer de gostar. Mas também percebo que gosto de características que me enraivecem em todas as outras pessoas, menos no ser amado.
A dúvida de gostar ou não de alguém me parece um gostar realmente. Mas e a dúvida de querer para si este alguém amado? São duas situações completamente distintas!
Amo, sou apaixonada, vislumbro e muitas vezes sonho com a pessoa. . .não sei se a quero em meus momentos. Isso acontece não?! Comigo sim!
Acredito na vida como MINHA vida e, dentro de meus limites terrenos e cognitivos, e sentimentais, e psíquicos, e espirituais, e mais um monte, me sinto apta a escolher se quero ou não ter minha pessoa amada ao meu lado. Acha contraditório?
Acho que quando não temos condições de optar em querer ou não a pessoa amada ao nosso lado, perdemos uma parte nossa que só a nós diz respeito e que só a nós irá nos faltar.
Se acredito que uma pessoa é inteira nela mesma, tenho que entender que isso também diz respeito a suas sensações e sentimentos. Como posso eu ser autônoma e plena como pessoa se dependo, ao mesmo tempo, de uma sensação e sentimento que eu mesma deixei que se tornassem presentes e grandes e fortes em minha própria vida?
Temos muitas respostas para todas essas perguntas, não?! Acho que cabe só a nós escolhermos a melhor para cada momento que vivemos! Somos autônomos mas não solitários, será?
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