30.4.17

Rodeado de vida

É difícil ficar sozinho. Imagino como deva se sentir quem o é. Aqui em casa é só silêncio, uma dessas solidões calma e pacífica por fora que quase todas as pessoas querem sentir às vezes. Às vezes: quando escolhem.

Tire um tempo pra você. Faz bem pra organizar o pensamento. Faça coisas que você gosta. Se cuide. Cuide do espaço que você vive. Aproveite pra ler um bom livro. Se conecte com as coisas que gosta em ti.

São tantos conselhos, são tantas possibilidades que as pessoas enxergam na solidão. Particularmente: eu não. Não que não faça todas essas coisas, mas não que as queria fazer nos momentos em que são impostas a mim. Mas o universo é sábio: dizem!

Não sei se já contei, mas a vista daqui de casa é linda. A vista do meu lar também era, também é. Da sala vejo o nascer do sol, do meu quarto o vejo sendo engolido pelo horizonte. Da sala um parque imenso, com árvores não mais peladas, mas cheias de ornamentos e com cores, com bichinhos que voam também. Do quarto um horizonte todo regado a vozes de crianças durante as manhãs da semana, que correm e brincam nas quadras lá debaixo.

Rodeado de vida. Cercado por vidros duplos, pra contenção do inverno, mas que abafam as vozes e ruídos e barulhos, de onde só escapam mesmo as vozes das crianças. Vidros duplos que silenciam fora, mas que não conseguem conter nem os mais ínfimos sussurros desse corpo, nesse corpo.  Então percebo que preencho meus dias com atividades para não preenche-los comigo.

Essas atividades acabam por fazer parte das características que as pessoas apreciam em mim. Me produzo num escape de minha própria vida e as pessoas gostam. Quando se atraem, só consigo imaginar que é por isso: por eu aguentar as condições. Não aguento: vivo.

Vivo minhas condições que não são minhas. Planejo e me desfaço, me deixo largar no sofá, às vezes na cama, às vezes nisso que é vida. Se queria companhia? Queria sim. É um indicativo de que o pretérito é imperfeito. Mas pelo menos esse é dúbio com o presente, o perfeito não. Prefiro o dúbio dos meus presentes.

Nenhum comentário:

Postar um comentário